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Quando o assunto é cinema II

Quinta-feira, Abril 2nd, 2009

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 A arte e o artista são inimigos mortais. Escondida em situações rotineiras e, muitas vezes, disfarçada de entretenimento, a arte é difícli e cruel. Cabe ao artista a impossível missão de encontrá-la, entendê-la e finalmente, explicá-la. Esta busca é sua agonia; basicamente, sua vida. Podemos então afirmar, de forma livre, que a vida do artista – sua jornada – é uma obra de arte. Se agora temos a ilusão de entender o que significa ser um artista, nos falta apenas a resposta para a pergunta primordial: O que é arte?

A vida de cada um de nós é um filme no qual ninguém nos interpretaria melhor do que nós mesmos, certo? Bem, para Charlie Kaufman não é tão simples assim. Em Synedoche New York, o diretor de teatro Caden Cotard, interpretado por Philip Seymour Hoffman, ao se deparar consigo mesmo, devido a uma insuportável solidão, decide montar um espetáculo grandioso, no qual ele poderia finalmente mostrar o seu verdadeiro eu. Ele aluga um galpão(fantasticamente) enorme e tenta, com a ajuda de um crescente elenco (em um certo ponto ele conta com mais de mil atores), reproduzir a já prejudicada visão do que significa sua miserável vida.

Perdido em um complexo caleidoscópio de situações fragmentadas no tempo, no qual uma mesma fase pode compreender vários pontos de vista, Cotard, assim como Guido de 8½ (Fellini), não consegue mais distinguir a realidade da ficção, o que acaba se estendendo à toda sua equipe.

Irreversível como a morte, tudo o que acontece no interminável cenário da peça tem consequência fundamental na vida real de Cotard, e vice-versa. A ficção abraça a realidade, que por sua vez, continua (naturalmente) alimentando o artista de novas circunstâncias para o seu roteiro. A morte está próxima. Não só para o diretor, mas para todo o elenco, como ele mesmo afirma, de forma quase cômica, na primeira reunião da equipe. Este é, possivelmente, o único momento de razão e consciência absoluta de Cotard: quando, antes mesmo do início do projeto, ele dá a entender que sua morte é o único final possível.

Em meio ao caos promovido pelo grande número de desejos não saciados e por histórias de amor incompletas, o diretor é vítima de um constante sofrimento associado ao seu passado, que o persegue de perto, assombrando-o.

Sem saber mais o que significa seu novo mundo (uma reprodução de Nova York), Caden Cotard abandona o posto de diretor, e vira um ator coadjuvante fazendo o papel de um espectador de sua própria vida, ou em última instância, da vida que indiretamente “criou” para todos os envolvidos.

No final, como um Deus esquecido, Cotard vaga pelo universo que já o pertenceu, mas que agora se encontra completamente destruído e deserto. Desiludido, Cotard ainda encontra uma última oportunidade de redenção. Instruído por um ponto no ouvido, que tem supostamente como interlocutor sua primeira mulher , ele a aproveita e, finalmente livre, morre.

Quando o assunto é cinema I

Segunda-feira, Março 23rd, 2009

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As crianças são filósofos por natureza. Suas questões são essenciais. E as respostas que o mundo oferece nunca serão suficientes. O que resta então são certezas vazias, crenças transitórias apoiadas no conceito de aceitação da sociedade em que vivemos. Conformados, vivemos com um buraco em nossas “almas”, que nos acompanha como um fantasma desafiando nossa “fé” constantemente.

À medida que amadurecemos, endurecemos. Levantamos barreiras em torno de tudo o que conquistamos, afinal, o que somos senão aquilo em que acreditamos? É assim que escolhemos nossos amigos, nossos trabalhos. É esse conhecimento que vamos passar para nossos filhos, e eles para os nossos netos, e assim por diante.

Mas será que nossas decisões, nem sempre tão confiantes, são geradas de acordo com o que sentimos? Até onde temos controle dos nossos sentimentos?

Sim, devemos voltar a questionar. Ou melhor, nunca deveríamos ter abandonado a filosofia. Ainda temos muitas perguntas a fazer. Quando as respostas que nos deram, não são mentirosas, são prejudiciais, pois, se é necessário humildade para aceitar as dúvidas que todos nós temos, é também importante que tenhamos consciência do que, de fato, observamos: vivemos em um mundo de sofrimento, guerra e fome. Grande parte da humanidade vive em condições subumanas. E se fomos capazes de aprender a ignorá-las, precisamos, em vista disso, descobrir o que mais aprendemos de errado.

Zeitgeist – The Movie, visto por esse ângulo, pode ser considerado um trabalho filosófico. Sua argumentação é clara: precisamos acordar. Como na alegoria de Platão, estamos presos em uma caverna, acreditando que as sombras projetadas na parede são a realidade.

Somos treinados a olhar somente para o próprio umbigo. Em consequência disso, o mundo em que vivemos e nossa própria condição de existência estão se deteriorando.

Muito mais do que querer provar a veracidade da difamada Teoria da Conspiração, Peter Joseph, diretor, escritor e editor do polêmico documentário, quer jogar luz sobre o fato de que aceitamos fácil demais o que nos é imposto pela “sociedade” através da mídia. A reação comum de quem assiste esse filme é a de perguntar de onde surgiram aquelas informações, e quais são as intenções do diretor, apresentando um surpreendente ceticismo que não aplica a outras situações.

O medo de estar sendo enganado é muitas vezes uma falta de coragem de mudar. Ao assistir Zeitgeist temo que muitas pessoas irão afirmar que é simplesmente um filme anti-religioso, anti-americano, anti-imperialista, e, por não concordarem com alguma parte, dêem por mentirosas todas as outras, enquanto o que me parece que proporcionou, em primeira instância, a confecção do documentário, foi uma insatisfação com a situação atual em que vivemos aliada à facilidade de pesquisa que existe hoje em dia devido a internet (que fez surgir, inclusive, diversos outros recentes documentários com a mesma temática).

Não é tão importante a veracidade de cada uma das informações transmitidas por Joseph em seu primeiro documentário, tendo em vista sua proposta essencial: é preciso que abramos nossos olhos; é importante que estejamos dispostos a mudar, e para isso, o primeiro passo é questionar.