Archive for the ‘Dicas Culturais’ Category

Clube do Vinil

Segunda-feira, Janeiro 11th, 2010

O Disco de vinil, ou simplesmente Vinil ou ainda Long Play (abreviatura LP ou elepê), ou coloquialmente bolachão é uma mídia desenvolvida no início da década de 1950 para a reprodução musical, que usava um material plástico chamado vinil.

Isso, segundo a wikipedia.

Na (minha) prática vinil é um biscoitão que tem que pegar pelas laterais, para não danificar, e encaixar em um pino sem poder olhar, esperar alguns plecs, trocs e outros ruídos. Mas depois… sentar para ouvir e olhar a capa, o encarte, as letras, com toda calma do mundo. Um vinho então, cai muito bem.

Segundo os jornalistas do início da década de 90, a chegada do CD era como a chegada dos espanhóis nas américas… faltal. Seria o fim do império do vinil?

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Não quero entrar em discussões sobre qual soa melhor, e outras bobagens. O fato é que um fenômeno bastante interessante acontece nos dias de hoje. Se na época da virada (vinil para CD) a tecnologia era (não)somente mais um recurso do mercado capitalista (me lembro bem da correria que houve para substituir a biblioteca de bolachões mecânicos pelas bolachinhas digitais),  hoje, os representantes do mercado da música, por exemplo, se encontram traídos e abandonados. Enquanto as gravadoras traziam poucas e péssimas opções, com uma ou duas excessões, a Internet traz boa música para bons ouvintes. E os bons ouvintes procuram produtos de acordo com a sua preferência.

A natureza da Web colocou o produto em seu devido lugar. Não precisamos (nós que não deixamos a TV ligada no fim de semana anunciando uma quantidade infinita de produtos inúteis) mais pensar em qual é o novo sucesso do momento, corremos atrás do que a gente realmente gosta, baixamos álbuns completos de bandas dos anos 70 que acabamos de descobrir, para depois comprar. Esse é o novo SUCESSO!

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Me lembro, por exemplo, que eu era obrigado a ouvir Charlie Brown Jr, Pitty e as piores bandas gringas  na CIDADE - A Rádio Rock (quem será que fazia aquelas programações… AH! O JABÁ!) para poder escutar um som novo mais interessante uma vez a cada 1000 músicas. É o que vem acontecendo com o Multishow e a MTV, para quem ainda tenta achar algo novo na TV.

Bem, e não é que depois de todo esse rololô o vinil, que nunca morreu, voltou com força total?

Ele é grandão, parece um poster, tem carisma, é frágil, é pós-moderno, é indie, é tropicalista e bossa-nova.

Fleet Foxes, Artic Monkeys, Radiohead, Los Hermanos. Hoje todos lançam em vinil.

Existe inclusive um blog http://www.artvinyl.com feito para quem curte. Eles divulgaram uma lista com as melhores artes/capas de 2009. Confira! http://www.artvinyl.com/en/nominate/nominations.html

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Existe também uma confraria em Campinas (sou um dos sócios que só aparecem bêbados) chamada Clube do Vinil, onde você pode ser o DJ e operar duas vitrolas com o que você considera bom para aquela noite! Saudações Charles!!

O que você está esperando? É caro… mas tem charme. Tire a poeira da vitrola do seu pai e comece uma coleção!

Nesse vai e vem, eu que sempre tive vontade de lançar um LP fico pensando se o Desacorde não merece uma edição especial em Vinil…

Cantiga de Enganar - Drummond

Quinta-feira, Janeiro 7th, 2010

 

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O mundo não vale o mundo, meu bem.
Eu plantei um pé-de-sono,
brotaram vinte roseiras.
Se me cortei nelas todas
e se todas me tingiram
de um vago sangue jorrado
ao capricho dos espinhos,
não foi culpa de ninguém.
O mundo, meu bem, não vale
a pena, e a face serena
vale a face torturada.
Há muito aprendi a rir,
de quê? de mim? ou de nada?
O mundo, valer não vale.
Tal como sombra no vale,
a vida baixa… e se sobe
algum som deste declive,
não é grito de pastor
convocando seu rebanho.
Não é flauta, não é canto
de amoroso desencanto.
Não é suspiro de grilo,
voz noturna de correntes,
não é mãe chamando filho,
não é silvo de serpentes
esquecidas de morder
como abstratas ao luar.
Não é choro de criança
para um homem se formar.

(…)

Não é nem isto, nem nada.
É som que precede a música,
sobrante dos desencontros
e dos encontros fortuitos,
dos malencontros e das
miragens que se condensam
ou que se dissolvem noutras
absurdas figurações.
O mundo não tem sentido.
O mundo e suas canções
de timbre mais comovido
estão calados, e a fala
que de uma para outra sala
ouvimos em certo instante
é silêncio que faz eco
e que volta a ser silêncio
no negrume circundante.
Silêncio: que quer dizer?
Que diz a boca do mundo?
Meu bem, o mundo é fechado,
se não for antes vazio.
O mundo é talvez: e é só.
Talvez nem seja talvez.
O mundo não vale a pena,
mas a pena não existe.
Meu bem, façamos de conta.
de sofrer e de olvidar,
de lembrar e de fruir,
de escolher nossas lembranças
e revertê-las, acaso
se lembrem demais em nós.
Façamos, meu bem, de conta
— mas a conta não existe —
que é tudo como se fosse,
ou que, se fora, não era.
Meu bem, usemos palavras.
façamos mundos: idéias.
Deixemos o mundo aos outros
já que o querem gastar.
Meu bem, sejamos fortíssimos
— mas a força não existe —
e na mais pura mentira
do mundo que se desmente,
recortemos nossa imagem,
mais ilusória que tudo,
pois haverá maior falso
que imaginar-se alguém vivo,
como se um sonho pudesse
dar-nos o gosto do sonho?
Mas o sonho não existe.
Meu bem, assim acordados,
assim lúcidos, severos,
ou assim abandonados,
deixando-nos à deriva
levar na palma do tempo
— mas o tempo não existe,
sejamos como se fôramos
num mundo que fosse: o Mundo.

Carlos Drummond de Andrade

Quando o assunto é cinema II

Quinta-feira, Abril 2nd, 2009

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 A arte e o artista são inimigos mortais. Escondida em situações rotineiras e, muitas vezes, disfarçada de entretenimento, a arte é difícli e cruel. Cabe ao artista a impossível missão de encontrá-la, entendê-la e finalmente, explicá-la. Esta busca é sua agonia; basicamente, sua vida. Podemos então afirmar, de forma livre, que a vida do artista – sua jornada – é uma obra de arte. Se agora temos a ilusão de entender o que significa ser um artista, nos falta apenas a resposta para a pergunta primordial: O que é arte?

A vida de cada um de nós é um filme no qual ninguém nos interpretaria melhor do que nós mesmos, certo? Bem, para Charlie Kaufman não é tão simples assim. Em Synedoche New York, o diretor de teatro Caden Cotard, interpretado por Philip Seymour Hoffman, ao se deparar consigo mesmo, devido a uma insuportável solidão, decide montar um espetáculo grandioso, no qual ele poderia finalmente mostrar o seu verdadeiro eu. Ele aluga um galpão(fantasticamente) enorme e tenta, com a ajuda de um crescente elenco (em um certo ponto ele conta com mais de mil atores), reproduzir a já prejudicada visão do que significa sua miserável vida.

Perdido em um complexo caleidoscópio de situações fragmentadas no tempo, no qual uma mesma fase pode compreender vários pontos de vista, Cotard, assim como Guido de 8½ (Fellini), não consegue mais distinguir a realidade da ficção, o que acaba se estendendo à toda sua equipe.

Irreversível como a morte, tudo o que acontece no interminável cenário da peça tem consequência fundamental na vida real de Cotard, e vice-versa. A ficção abraça a realidade, que por sua vez, continua (naturalmente) alimentando o artista de novas circunstâncias para o seu roteiro. A morte está próxima. Não só para o diretor, mas para todo o elenco, como ele mesmo afirma, de forma quase cômica, na primeira reunião da equipe. Este é, possivelmente, o único momento de razão e consciência absoluta de Cotard: quando, antes mesmo do início do projeto, ele dá a entender que sua morte é o único final possível.

Em meio ao caos promovido pelo grande número de desejos não saciados e por histórias de amor incompletas, o diretor é vítima de um constante sofrimento associado ao seu passado, que o persegue de perto, assombrando-o.

Sem saber mais o que significa seu novo mundo (uma reprodução de Nova York), Caden Cotard abandona o posto de diretor, e vira um ator coadjuvante fazendo o papel de um espectador de sua própria vida, ou em última instância, da vida que indiretamente “criou” para todos os envolvidos.

No final, como um Deus esquecido, Cotard vaga pelo universo que já o pertenceu, mas que agora se encontra completamente destruído e deserto. Desiludido, Cotard ainda encontra uma última oportunidade de redenção. Instruído por um ponto no ouvido, que tem supostamente como interlocutor sua primeira mulher , ele a aproveita e, finalmente livre, morre.

Quando o assunto é cinema I

Segunda-feira, Março 23rd, 2009

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As crianças são filósofos por natureza. Suas questões são essenciais. E as respostas que o mundo oferece nunca serão suficientes. O que resta então são certezas vazias, crenças transitórias apoiadas no conceito de aceitação da sociedade em que vivemos. Conformados, vivemos com um buraco em nossas “almas”, que nos acompanha como um fantasma desafiando nossa “fé” constantemente.

À medida que amadurecemos, endurecemos. Levantamos barreiras em torno de tudo o que conquistamos, afinal, o que somos senão aquilo em que acreditamos? É assim que escolhemos nossos amigos, nossos trabalhos. É esse conhecimento que vamos passar para nossos filhos, e eles para os nossos netos, e assim por diante.

Mas será que nossas decisões, nem sempre tão confiantes, são geradas de acordo com o que sentimos? Até onde temos controle dos nossos sentimentos?

Sim, devemos voltar a questionar. Ou melhor, nunca deveríamos ter abandonado a filosofia. Ainda temos muitas perguntas a fazer. Quando as respostas que nos deram, não são mentirosas, são prejudiciais, pois, se é necessário humildade para aceitar as dúvidas que todos nós temos, é também importante que tenhamos consciência do que, de fato, observamos: vivemos em um mundo de sofrimento, guerra e fome. Grande parte da humanidade vive em condições subumanas. E se fomos capazes de aprender a ignorá-las, precisamos, em vista disso, descobrir o que mais aprendemos de errado.

Zeitgeist – The Movie, visto por esse ângulo, pode ser considerado um trabalho filosófico. Sua argumentação é clara: precisamos acordar. Como na alegoria de Platão, estamos presos em uma caverna, acreditando que as sombras projetadas na parede são a realidade.

Somos treinados a olhar somente para o próprio umbigo. Em consequência disso, o mundo em que vivemos e nossa própria condição de existência estão se deteriorando.

Muito mais do que querer provar a veracidade da difamada Teoria da Conspiração, Peter Joseph, diretor, escritor e editor do polêmico documentário, quer jogar luz sobre o fato de que aceitamos fácil demais o que nos é imposto pela “sociedade” através da mídia. A reação comum de quem assiste esse filme é a de perguntar de onde surgiram aquelas informações, e quais são as intenções do diretor, apresentando um surpreendente ceticismo que não aplica a outras situações.

O medo de estar sendo enganado é muitas vezes uma falta de coragem de mudar. Ao assistir Zeitgeist temo que muitas pessoas irão afirmar que é simplesmente um filme anti-religioso, anti-americano, anti-imperialista, e, por não concordarem com alguma parte, dêem por mentirosas todas as outras, enquanto o que me parece que proporcionou, em primeira instância, a confecção do documentário, foi uma insatisfação com a situação atual em que vivemos aliada à facilidade de pesquisa que existe hoje em dia devido a internet (que fez surgir, inclusive, diversos outros recentes documentários com a mesma temática).

Não é tão importante a veracidade de cada uma das informações transmitidas por Joseph em seu primeiro documentário, tendo em vista sua proposta essencial: é preciso que abramos nossos olhos; é importante que estejamos dispostos a mudar, e para isso, o primeiro passo é questionar.

Fleet Foxes

Domingo, Fevereiro 15th, 2009

Eu ia fazer um post especial do Fleet Foxes na série Quando O Assunto É Música. Adorei o disco de estréia da banda. É raro encontrar melodias tão bem planejadas quanto as que eu ouvi nas canções Ragged Wood e White Winter Hymnal(estou ouvindo essa última enquanto escrevo).

 Acontece que eu encontrei um vídeo no youtube de duas meninas cantando Tiger Mountain Peasant Song que é capaz de deixar os Raposas Velozes para trás.  Elas fazem parte de uma banda chamada First Aid Kit. Já assisti a esse vídeo umas 15 vezes. Não vou falar mais nada.

Taí!

Quando o assunto é música VI

Quarta-feira, Janeiro 21st, 2009

Se você já conhece ou é fã de Miriam Makeba, quero me explicar (me desculpar) antes de começar esse post.

Nessa coluna eu coloco bandas e artistas que são novidades em potencial. Ou até discos menos conhecidos de artistas consagrados. O que não quero, até porque não é essa a proposta, é dar dicas de grandes clássicos. Hoje me sinto como se estivesse apresentando os Beatles… Esses já aparecem diariamente em blogs, revistas e até(principalmente) na capa do segundo caderno.

Pois foi exatamente no segundo caderno d`O Globo que encontrei a notícia de que a Mama Áfrika havia morrido aos 78 anos. Essa informação, aliada a uma missão teimosa e frustrante de ouvir todos os discos da lista “1001 discos que você tem que ouvir antes de morrer”(que eu levei a sério), me trouxeram essa grande recompensa. O que eu já devia saber a muito tempo. Makeba pertence a um grupo seleto de deusas da música. Ela, como Piaf, Fitzgerald e pouquíssimas outras(eu incluo a Elis) transcende a própria música, a melodia. Deixa de lado preocupações mundanas como “quem compôs essa música?” ou “quantos discos ela vendeu?”. Entramos numa espécie de transe, por conta de sua voz.

O disco que aparece  na lista dos 1001 tem o nome da cantora e data de 1960. É uma coletânea, e como álbum não funciona tão bem. Mas cada música é um deleite. 

A mistura de ritmos e melodias africanas com blues e jazz(genuinamente americanos) resultam numa base sólida para o talento de Makeba. Pata Pata, o seu maior hit, que na escola era mais conhecida como “Tá com pulga na cueca” não está nesse disco.

Além de gênio da música essa mulher tem um histórico de luta na política. Pra quem se interessar http://pt.wikipedia.org/wiki/Miriam_Makeba

Pesquisando um pouco mais, encontrei um vídeo no youtube que me deixou de cara. É por isso que estou aqui hoje. Pra dar essa dica. Tudo o que eu falei mais acima se resume nessa apresentação.

Então, vista o seu fone, feche os olhos e …