Cantiga de Enganar - Drummond

Quinta-feira, 7 de Janeiro, 2010

 

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O mundo não vale o mundo, meu bem.
Eu plantei um pé-de-sono,
brotaram vinte roseiras.
Se me cortei nelas todas
e se todas me tingiram
de um vago sangue jorrado
ao capricho dos espinhos,
não foi culpa de ninguém.
O mundo, meu bem, não vale
a pena, e a face serena
vale a face torturada.
Há muito aprendi a rir,
de quê? de mim? ou de nada?
O mundo, valer não vale.
Tal como sombra no vale,
a vida baixa… e se sobe
algum som deste declive,
não é grito de pastor
convocando seu rebanho.
Não é flauta, não é canto
de amoroso desencanto.
Não é suspiro de grilo,
voz noturna de correntes,
não é mãe chamando filho,
não é silvo de serpentes
esquecidas de morder
como abstratas ao luar.
Não é choro de criança
para um homem se formar.

(…)

Não é nem isto, nem nada.
É som que precede a música,
sobrante dos desencontros
e dos encontros fortuitos,
dos malencontros e das
miragens que se condensam
ou que se dissolvem noutras
absurdas figurações.
O mundo não tem sentido.
O mundo e suas canções
de timbre mais comovido
estão calados, e a fala
que de uma para outra sala
ouvimos em certo instante
é silêncio que faz eco
e que volta a ser silêncio
no negrume circundante.
Silêncio: que quer dizer?
Que diz a boca do mundo?
Meu bem, o mundo é fechado,
se não for antes vazio.
O mundo é talvez: e é só.
Talvez nem seja talvez.
O mundo não vale a pena,
mas a pena não existe.
Meu bem, façamos de conta.
de sofrer e de olvidar,
de lembrar e de fruir,
de escolher nossas lembranças
e revertê-las, acaso
se lembrem demais em nós.
Façamos, meu bem, de conta
— mas a conta não existe —
que é tudo como se fosse,
ou que, se fora, não era.
Meu bem, usemos palavras.
façamos mundos: idéias.
Deixemos o mundo aos outros
já que o querem gastar.
Meu bem, sejamos fortíssimos
— mas a força não existe —
e na mais pura mentira
do mundo que se desmente,
recortemos nossa imagem,
mais ilusória que tudo,
pois haverá maior falso
que imaginar-se alguém vivo,
como se um sonho pudesse
dar-nos o gosto do sonho?
Mas o sonho não existe.
Meu bem, assim acordados,
assim lúcidos, severos,
ou assim abandonados,
deixando-nos à deriva
levar na palma do tempo
— mas o tempo não existe,
sejamos como se fôramos
num mundo que fosse: o Mundo.

Carlos Drummond de Andrade

Sendo um Jovem de Atitude

Quarta-feira, 6 de Janeiro, 2010

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2010 ainda nem começou (para a maioria) e eu já começo a ter flashfowards de memória de um ano completamente imprevisível.

Ao mesmo tempo que espero muito deste ano, sinto que o mundo não espera por mim. Me sinto metralhado pela quantidade de informações, úteis ou não, vindas de todos os lados, mídias, pessoas… Atropelado.

Sou diariamente esquecido pelo google. Minha caixa de emails é lotada de interesseiros, publicitários, amigos em preto e branco, tão perdidos quanto eu, e ainda assim, virtualmente satisfeitos pela quantidade de scraps confusos e mal escritos que recebem diariamente.

No que se transformou a minha vida? Um compromisso para o qual estarei eternamente atrasado?

Será que minha geração vive uma crise não prevista por psicólogos?

Somo caretas, grandalhões, criançonas assitindo televisão e brincando no computador, enquanto nos alienamos de nós mesmos.

Somos sonhadores irremediáveis, mas já sem esperança. Somos filhos de hippies e pais da internet. Quase somos tudo… Mas na realidade não somos quase nada. Não somos culpados ou vítimas.
O que fazer diante de tal conclusão? Chorar? Comemorar? Se conformar?

Eu preciso fazer um disco. Me dar uma chance de um último grito de Help! De poder me expressar livremente, como fazem os que estão realmente antenados. De poder esquecer que a MTV tem atitude, e a Pitty também. Preciso tomar uma atitude.

Hoje tem ensaio. Eu, Márcio Biaso, Stephan Drummond e Rafael Luddo.

Um homem ou um rato?

Sábado, 2 de Janeiro, 2010

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Um rato. Mas que toca violão!

Ontem eu sentei e compus uma música.

Fiquei feliz com o resultado. Sinto que estou voltando a me sentir artista, compositor. Tô voltando a sonhar (fudeu… será que meu coração ainda aguenta).

Otimista?  Nem tanto.

Em relação ao disco… SIM! Quero gravar essa nova música o quanto antes. Quero fazer outras. Quero segurar minha guitarra mais uma vez. Eu preciso tocar!!! Cantar (gritar)!

Bem, já que 2010 começou me dando uma música, resolvi devolver o presente com um post. O primeiro em muito tempo.

Criei ainda um perfil no facebook (o orkut internacional), vou espantar as moscas do meu twitter, e vou responder aos fiéis amigos e ouvintes que não se cansaram em mandar emails, scraps e comments perguntando, por exemplo, onde é que eu tinha me metido.

Agora eu embalo de novo!

Whatever Happened to Apoena

Quarta-feira, 17 de Junho, 2009

15 anos de batalha. Muitas coisas aconteceram desde que eu e Billy montamos a nossa primeira banda: Expressão. A formação era reduzida, eu na guitarra e Billy na … guitarra! Mas os sonhos eram enormes. As possibilidades, infinitas.

Desacorde me deu muita satisfação. Fiz muitos shows. Recebi muitos elogios e convites especiais. O problema é que eu trabalhava para pagar os meus sonhos. Será que algum dia eu conseguiria juntar os dois? Trabalho e vontade de trabalhar?

O fato é que isso estava demorando muito para acontecer, eu tinha que tomar uma atitude, do contrário poderia ser tarde demais.

 

Mudei de estratégia.

 

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Agora eu vou trabalhar. Quando eu estiver mais tranquilo, financeiramente, eu volto com tudo. É claro que estou ciente do risco que estou correndo, mas como diz Jack Bauer, “Right now it’s my only choice…”.

 

Enquanto isso, prometo deixar este blog de pé. Acho que é o mínimo que posso fazer por minha história e pelos amigos (incluindo vocês que me lêem) que fiz nessa caminhada.

 

O mercado para nós (músicos) é muito cruel. Alguns podem chiar: Para de reclamar e vai tocar… Ou: Mas o que você queria com um disco totalmente conceitual…

 

Para os primeiros eu concordo que não adianta ficar se justificando, e prometo que vou fazer de tudo para que minha volta aos palcos seja a mais rápida possível. Para os segundos eu deixo um aviso: Conceitual????? Esperem o próximo, Babies!

 

Preguiça Carioca - Uma PENA

Sexta-feira, 17 de Abril, 2009

Trecho de uma entrevista com Marcelo Calado no blog do Caetano Veloso.

http://www.obraemprogresso.com.br/ 

 

C - Você participa de mais de uma banda. Como vê a cena carioca?

R - O Rio tem uma diversidade de bandas muito grande. Mas tem sofrido de um problema sistemático:
Preguiça. Em outras cidade do Brasil, principalmente em São Paulo, quando vou tocar com “Do Amor” ou
“Brasov” vejo que o público se forma sempre com pessoas curiosas afim de descobrir algo novo. No Rio
tenho a impressão da galera estar sempre a procura do Programa, da night, da bombação. Claro que em
Sampa ou em Brasília também tem isso. Mas tem também o público interessado. O Rio tem poucas casas de pequeno e médio porte pra tocar porque os programas que “dão certo” já são sabidos e ninguém quer arriscar algo novo. Salvo o fenômeno de música brasileira na Lapa que de fato é muito positivo mas não é suficiente para abranger toda complexidade de bandas que acabam tocando muito mais fora do Rio. Em várias capitais não há muitos lugares pra tocar também mas têm os maravilhosos festivais (não só em capitais) que é o sonho de qualquer banda. Esse é um fenômeno em desenvolvimento. Os festivais ainda têm o que melhorar em estrutura e organização mas é feito por gente séria e por público interessado. O que acaba criando uma demanda de shows fora do festival. Sem falar nos ricos encontros entre bandas de cantos diferentes do país. No Rio se depende muito da mídia para tornar um projeto viável pois a mobilização  das pessoas interessadas em fomentar a cena musical não é auto-sustentável, ainda.

Quando o assunto é cinema II

Quinta-feira, 2 de Abril, 2009

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 A arte e o artista são inimigos mortais. Escondida em situações rotineiras e, muitas vezes, disfarçada de entretenimento, a arte é difícli e cruel. Cabe ao artista a impossível missão de encontrá-la, entendê-la e finalmente, explicá-la. Esta busca é sua agonia; basicamente, sua vida. Podemos então afirmar, de forma livre, que a vida do artista – sua jornada – é uma obra de arte. Se agora temos a ilusão de entender o que significa ser um artista, nos falta apenas a resposta para a pergunta primordial: O que é arte?

A vida de cada um de nós é um filme no qual ninguém nos interpretaria melhor do que nós mesmos, certo? Bem, para Charlie Kaufman não é tão simples assim. Em Synedoche New York, o diretor de teatro Caden Cotard, interpretado por Philip Seymour Hoffman, ao se deparar consigo mesmo, devido a uma insuportável solidão, decide montar um espetáculo grandioso, no qual ele poderia finalmente mostrar o seu verdadeiro eu. Ele aluga um galpão(fantasticamente) enorme e tenta, com a ajuda de um crescente elenco (em um certo ponto ele conta com mais de mil atores), reproduzir a já prejudicada visão do que significa sua miserável vida.

Perdido em um complexo caleidoscópio de situações fragmentadas no tempo, no qual uma mesma fase pode compreender vários pontos de vista, Cotard, assim como Guido de 8½ (Fellini), não consegue mais distinguir a realidade da ficção, o que acaba se estendendo à toda sua equipe.

Irreversível como a morte, tudo o que acontece no interminável cenário da peça tem consequência fundamental na vida real de Cotard, e vice-versa. A ficção abraça a realidade, que por sua vez, continua (naturalmente) alimentando o artista de novas circunstâncias para o seu roteiro. A morte está próxima. Não só para o diretor, mas para todo o elenco, como ele mesmo afirma, de forma quase cômica, na primeira reunião da equipe. Este é, possivelmente, o único momento de razão e consciência absoluta de Cotard: quando, antes mesmo do início do projeto, ele dá a entender que sua morte é o único final possível.

Em meio ao caos promovido pelo grande número de desejos não saciados e por histórias de amor incompletas, o diretor é vítima de um constante sofrimento associado ao seu passado, que o persegue de perto, assombrando-o.

Sem saber mais o que significa seu novo mundo (uma reprodução de Nova York), Caden Cotard abandona o posto de diretor, e vira um ator coadjuvante fazendo o papel de um espectador de sua própria vida, ou em última instância, da vida que indiretamente “criou” para todos os envolvidos.

No final, como um Deus esquecido, Cotard vaga pelo universo que já o pertenceu, mas que agora se encontra completamente destruído e deserto. Desiludido, Cotard ainda encontra uma última oportunidade de redenção. Instruído por um ponto no ouvido, que tem supostamente como interlocutor sua primeira mulher , ele a aproveita e, finalmente livre, morre.